Sortear tarefas e rodízio

Publicado em agosto de 2026

A louça, o plantão, quem apaga a luz, quem apresenta o relatório chato. Sortear parece a solução mais justa, e é — desde que você use o tipo certo de sorteio. Sorteio puro tem um defeito que aparece na primeira semana.

O defeito do sorteio puro

Com quatro pessoas em casa e sorteio livre a cada dia, a chance de a mesma pessoa ser sorteada dois dias seguidos é de 25%. Três dias seguidos, 6,25% — ou seja, uma vez a cada dezesseis. Em um mês, isso acontece. E quando acontece, ninguém aceita a explicação estatística: a pessoa afetada vai dizer que o sorteio está errado, e o clima piora.

O ponto importante é que ela não está errada em reclamar. Se o objetivo era "cada um faz na sua vez", o sorteio livre é a ferramenta errada — ele garante imparcialidade, não alternância. São coisas diferentes, e confundir as duas é a origem de quase toda briga de escala doméstica.

O conserto: sortear sem reposição

Em vez de sortear um nome por dia, sorteie a ordem de todos uma única vez e siga a fila. Quatro pessoas, quatro dias, cada um uma vez; no fim do ciclo, sorteie a ordem de novo. É o método do saquinho de papéis: você tira sem devolver.

Isso mantém o que o sorteio tem de bom — ninguém escolheu, ninguém foi perseguido — e elimina a repetição. A ordem de jogada faz exatamente isso: embaralha a lista com todas as ordens igualmente prováveis e entrega a fila pronta para copiar no grupo de mensagens.

Quando o sorteio livre é o certo

Para tarefa que aparece de vez em quando, sem ritmo fixo — a encomenda que chegou, o cano que vazou, a pergunta difícil do cliente. Aqui não existe ciclo a respeitar, e sortear na hora com o dado de nomes é o suficiente. A diferença entre os dois casos é simples: tarefa recorrente pede rodízio; tarefa avulsa pede sorteio.

Peso para corrigir desequilíbrio

Nem sempre as pessoas entram no rodízio em pé de igualdade. Quem viajou na última rodada, quem já pegou a tarefa pesada duas vezes, quem tem menos tempo disponível naquela semana. Escrever Bruno*2 dobra a chance dele, e o contador mostra o total de chances em jogo.

A regra que faz isso funcionar é uma só: o peso tem de ser declarado antes. Peso combinado é acordo; peso descoberto depois é armação, mesmo quando a intenção era boa. É o mesmo princípio de usar o acaso para decidir.

Distribuir várias tarefas de uma vez

Quando são cinco tarefas e cinco pessoas, sortear tarefa por tarefa é lento e permite que sobre a pior para a última pessoa por acidente. Melhor: sorteie a ordem das pessoas, sorteie a ordem das tarefas e case as duas listas na sequência. Todo mundo recebe uma, nada sobra e ninguém escolheu.

Se as tarefas têm peso muito diferente — limpar o banheiro não é tirar o lixo — não sorteie tudo junto. Separe as pesadas das leves, sorteie cada grupo à parte e garanta que ninguém pegue duas pesadas no mesmo ciclo. Sorteio distribui a chance, e não o esforço; equilibrar esforço é trabalho seu, feito antes.

Três detalhes que evitam discussão

  • Registre onde todos vejam. A escala sorteada colada na geladeira ou fixada no grupo resolve a memória seletiva de todo mundo, inclusive a sua.
  • Combine a troca. Permitir que duas pessoas troquem entre si, avisando o grupo, evita que a escala seja abandonada na primeira semana difícil.
  • Não sorteie de novo porque alguém não gostou. Uma repetição do sorteio já basta para o método perder a autoridade que era o motivo de usá-lo.

Onde o sorteio não deve entrar

Tarefa que exige habilidade específica, tarefa com risco e tarefa que é responsabilidade formal de alguém não se sorteiam. Sortear quem cuida do remédio de uma criança ou quem responde por um prazo legal não é imparcialidade — é abrir mão de decidir onde decidir importa. O acaso serve para distribuir o que é intercambiável.

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